Este projeto de direção de fotografia parte de uma aproximação com a tradição do cinema soviético, especialmente com os experimentos de observação e montagem propostos pelo movimento Kino-Pravda, associado ao trabalho de Dziga Vertov. O filme busca registrar o mundo como um fluxo de imagens em constante transformação, onde a câmera assume o papel de observadora ativa da realidade.
Visualmente, a construção do filme também dialoga com a estética da fotografia de grande formato. A composição dos planos, a atenção à textura da luz e o ritmo contemplativo dos enquadramentos evocam a lógica do retrato fotográfico, transformando cada frame em uma imagem quase estática, marcada pela densidade do tempo e pela presença silenciosa do espaço.
A narrativa visual é acompanhada por um poema recitado no filme The Mirror, de Andrei Tarkovsky, texto escrito por seu pai, Arseny Tarkovsky. O poema, que reflete sobre memória, sonho e passagem do tempo, atua como fio condutor do filme, aproximando imagem e palavra em uma atmosfera introspectiva.
Esse ritmo mais contemplativo também estabelece um diálogo direto com a pesquisa que orienta o projeto completo da coleção. Em oposição à velocidade que marca o mercado contemporâneo especialmente no campo da moda, onde tendências surgem e desaparecem em ciclos cada vez mais curtos, o filme propõe uma desaceleração do olhar. Ao privilegiar planos mais longos, silêncios e uma construção visual menos imediata, a obra se coloca deliberadamente na contramão da lógica de consumo rápido e da produção orientada por tendências. Nesse sentido, o caráter experimental do filme não é apenas uma escolha estética, mas também um posicionamento crítico e uma tentativa de criar espaço para a contemplação, para a permanência da imagem e para uma relação mais lenta e reflexiva com aquilo que se vê.
Back to Top