ESTADO é meu trabalho de conclusão de curso desenvolvido no ano de 2025 para a conclusão do curso em Design de moda no Istituto Europeu di Design.
O projeto investiga a estética como um campo de disputa simbólica
intrinsecamente ligado a dinâmicas de poder voltadas para a construção
ideológica, controle social e como essas dinâmicas manuseiam a estética. A
pesquisa parte da premissa de que a arte, a moda e o design operam como
mecanismos de "engenharia social", capazes de moldar subjetividades, construir
sociedades, ideais e padronizar comportamentos. Para tanto, o estudo analisa o
fenômeno histórico do "Estilo da Multidão Cinza", surgido na União Soviética
pós-1917, que constituiu um projeto ideológico de apagamento da distinção de
classe e de dissolução da individualidade em favor do coletivismo, materializado
pelo funcionalismo do Construtivismo e do Produtivismo (VKhUTEMAS). No
entanto, a coleção rejeita a reprodução literal da moda soviética, ancorando-se, em
vez disso, na atmosfera filosófica e na crítica cultural de seu tempo, para discutir o
papel da estética e seus possíveis manuseios no contexto soviético e no mundo
contemporâneo, saturado de imagens e dominado pela hiperpersonalização e pela
busca incessante pela distinção.
A análise teórica se aprofunda na vanguarda russa, contrastando o rigor
funcionalista da roupa como "instrumento", com o radicalismo espiritual do
Suprematismo de Kazimir Malevich. A obra Quadrado Branco sobre Fundo Branco
que foi adotada como o "zero de forma" estético, e um ponto de anulação da
representação serve de base filosófica para o projeto prático. Desta forma a
escolha do Tyvek branco é central para o projeto, leve e sem memória, o Tyvek
atua como tela limpa e suporte da “pura ação” crítica e imaginária, um elemento
que, em sua neutralidade nos realoca ao passo zero de uma caminhada infinita no
campo sensitivo da imaginação. Assim, o Tyvek branco não é apenas um material
técnico, mas uma metáfora de transcendência, que nos conduz ao nada para
conceber a suprema possibilidade de pensar em tudo.
Em paralelo crítico com a contemporaneidade, a pesquisa utiliza conceitos da
Teoria Crítica (Adorno, Byung-Chul Han) para diagnosticar que a padronização não
é mais uma imposição estatal, mas sim mercadológica, o resultado da "compulsão
de ser único" no capitalismo tardio, onde a busca incessante por distinção se torna
uma forma sofisticada de padronização mercadológica. Sendo assim, a coleção
propõe uma crítica direta à lógica de consumo e à superexposição do indivíduo, na
qual a aparência e a visibilidade tornaram-se imperativos morais. Nesse cenário, a
neutralidade dos brancos e a repetição intencional das formas funcionam como um
gesto de resistência, criando uma tentativa de romper com o ciclo de diferenciação
e devolver ao corpo um espaço de pensamento que tenta negar a promessa
ilusória de individualidade como valor de consumo e status.
ESTADO fashion filme.
Este projeto de direção de fotografia parte de uma aproximação com a tradição do cinema soviético, especialmente com os experimentos de observação e montagem propostos pelo movimento Kino-Pravda, associado ao trabalho de Dziga Vertov. O filme busca registrar o mundo como um fluxo de imagens em constante transformação, onde a câmera assume o papel de observadora ativa da realidade.
Visualmente, a construção do filme também dialoga com a estética da fotografia de grande formato. A composição dos planos, a atenção à textura da luz e o ritmo contemplativo dos enquadramentos evocam a lógica do retrato fotográfico, transformando cada frame em uma imagem quase estática, marcada pela densidade do tempo e pela presença silenciosa do espaço.
A narrativa visual é acompanhada por um poema recitado no filme The Mirror, de Andrei Tarkovsky, texto escrito por seu pai, Arseny Tarkovsky. O poema, que reflete sobre memória, sonho e passagem do tempo, atua como fio condutor do filme, aproximando imagem e palavra em uma atmosfera introspectiva.
Esse ritmo mais contemplativo também estabelece um diálogo direto com a pesquisa que orienta o projeto completo da coleção.
Em oposição à velocidade que marca o mercado contemporâneo especialmente no campo da moda, onde tendências surgem e desaparecem em ciclos cada vez mais curtos, o filme propõe uma desaceleração do olhar.
Ao privilegiar planos mais longos, silêncios e uma construção visual menos imediata, a obra se coloca deliberadamente na contramão da lógica de consumo rápido e da produção orientada por tendências. Nesse sentido, o caráter experimental do filme não é apenas uma escolha estética, mas também um posicionamento crítico e uma tentativa de criar espaço para a contemplação, para a permanência da imagem e para uma relação mais lenta e reflexiva com aquilo que se vê.
Editorial //
As fotografias deste editorial surgem como uma extensão visual do projeto cinematográfico, aprofundando suas referências e intenções estéticas. Inspiradas em retratos de época realizados com câmeras de grande formato, as imagens buscam recuperar uma relação mais lenta e deliberada com o ato de fotografar. A construção dos enquadramentos, a postura dos retratados e a atenção à luz evocam a tradição da fotografia analógica, na qual cada imagem carrega o peso do tempo, da preparação e da observação cuidadosa.
Essa abordagem também dialoga, de maneira indireta, com a tradição do cinema soviético e com os experimentos visuais associados ao movimento Kino-Pravda. Assim como nesses trabalhos, as imagens procuram revelar uma dimensão mais essencial da presença humana diante da câmera, privilegiando gestos simples, olhares diretos e uma construção visual que valoriza a relação entre corpo, espaço e tempo.
Ao mesmo tempo, o editorial se posiciona conceitualmente contra a lógica acelerada que estrutura grande parte da produção de imagens no mercado contemporâneo da moda.
Em vez de seguir tendências visuais passageiras ou uma estética orientada pelo consumo imediato, o projeto propõe um olhar mais contemplativo e artístico. As fotografias procuram desacelerar o tempo da imagem, permitindo que o espectador permaneça diante do retrato e estabeleça uma relação mais sensível e reflexiva com aquilo que vê.
Nesse sentido, o editorial não funciona apenas como registro visual de uma coleção ou de um conceito, mas como parte de uma investigação mais ampla sobre ritmo, permanência e observação, sendo uma tentativa de construir imagens que resistam à lógica da velocidade e recuperem a dimensão poética do olhar.
Lookbook //
Croquis //